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Viajando na Velocidade da Luz – parte I

Sinais Elétricos. Impulsos capazes de transportar o pensamento humano na velocidade da luz. Descubra como começou essa revolução na comunicação e quem foram os empreendedores do passado que mudaram o mundo com seus inventos.


Por Camila Machado de Araújo


A linguagem oral foi uma das aquisições mais valiosas da humanidade. É fato que todo o desenvolvimento de nossa espécie se deve à capacidade dos seres humanos de transmitir conhecimento.

“Se mais longe vi, foi por estar apoiado sobre ombros de gigantes”, esta frase pertence ao grande físico e matemático Sir Isaac Newton. Toda invenção e descoberta científica está apoiada em séculos de desenvolvimento anterior e é fruto da contribuição de incontáveis mentes humanas. Se, no passado, uma nova descoberta poderia levar mais de um século para chegar à outra parte do mundo, o advento das telecomunicações permitiu alcançar um novo patamar na evolução da comunicação: transmitir informações quase instantaneamente.

No final do século XVIII, a forma mais rápida de comunicação que existia no mundo era o telégrafo óptico. Esse consistia em uma grande torre com hastes de metal móveis, que podiam ser alinhadas em 90 posições diferentes. Cada mensagem podia transmitir dois números, indicando a página e a linha de uma palavra em um livro. O nome “telégrafo” vem do grego e significa “escrita à distância”. Uma rede de telégrafos ópticos cobria a Europa, permitindo que mensagens viajassem a mais de 300 km/h, mais rápido e mais longe do que qualquer meio de comunicação anterior, devido à invenção do engenheiro francês Claude Chappe.

Figura 1. Telégrafo móvel francês à esquerda e em desenho à direita. [Fonte: https://ztfnews.wordpress.com/2013/12/25/el-telegrafo-optico-de-claude-chappe/]

Nesse mesmo século, a eletricidade aflorava como um novo campo da física e muitos experimentos eram feitos para seu estudo. Sabia-se que era possível armazenar cargas elétricas estáticas e usá-las para dar choques em pessoas, mas Nollet, um padre francês muito interessado por essa área, queria ir além. Em 1746, o padre reuniu 200 monges de seu monastério e posicionou-os em pé e em círculo, ligados com fios de ferro por mais de um quilômetro. Para o experimento, um dos monges tocou em uma esfera carregada eletricamente e, para a grande surpresa, todos levaram um choque e gritaram ao mesmo tempo. Provou-se que não apenas era possível transmitir eletricidade a grandes distâncias, como também era um processo quase instantâneo.

Muitos cientistas tentaram desenvolver um aparelho que transmitisse mensagens por meio de fios utilizando a eletricidade. Mas há um grande salto entre estudar as propriedades físicas de um material e confeccionar um produto comercializável. Quem primeiro conseguiu o grande feito foi uma pessoa inesperada: Samuel Morse era pintor. Em uma viagem de navio, um marinheiro lhe contou como a eletricidade poderia chegar de um ponto a outro instantaneamente. Teve, então, o que acreditava ser uma ideia pioneira, comunicação instantânea utilizando esse fenômeno.

Já existiam diversos sistemas que transmitiam mensagens por meio de fios e impulsos elétricos – nenhum realmente prático. Embora outros já tivessem tentado, Samuel Morse chegou onde ninguém mais conseguiu. Ele criou um produto comercializável que revolucionou a comunicação humana.

Por vezes, quando o orçamento apertava e Morse tinha que escolher entre comprar comida ou novas peças para seu invento, ele passou fome. Após 12 anos aprimorando sua criação e insistindo em sua potencialidade, finalmente, conseguiu financiamento. Assim, pôde patenteá-la e realizar uma demonstração pública de longa distância do telégrafo elétrico.

Além de desenvolver o telégrafo, criou um código para mandar as mensagens de forma eficiente. O Código Morse foi o primeiro código internacional e a chave do sucesso do primeiro aparelho de comunicação instantânea do mundo. Nele, os símbolos do alfabeto eram representados por traços e pontos. Em sua versão final, o telégrafo elétrico funcionava como um eletroímã acionado à distância que transmitia as mensagens codificadas.


Do lado do emissor, o teclado Morse funciona como uma chave (ver Figura 3). Quando o manipulador é pressionado, ele fecha o contato do circuito e transmite um impulso elétrico pelo fio da linha telegráfica à outra parte. Do lado do receptor, o impulso elétrico recebido aciona o eletroímã, que, por meio da atração da força magnética, movimentava a haste que segura o lápis, fazendo-o riscar a tira de papel. Impulsos longos representam traços e impulsos curtos, pontos. Os caracteres eram separados por três espaços em branco.


Esse efeito é possível pois os fenômenos elétricos e magnéticos estão intimamente relacionados. Cargas elétricas em movimento, como uma corrente elétrica em um fio, geram uma circulação de campo magnético (ver Figura 4). O enrolamento do fio no formato de uma bobina ocasiona a superposição dos campos magnéticos. Desse modo, o campo resultante é mais forte, originando um eletroímã (ver Figura 5). Assim, apenas quando há corrente elétrica no fio, a bobina possui propriedades magnéticas.

Figura 4. Circulação de Campo Magnético (B) em um fio percorrido por corrente elétrica (I). [Fonte:http://ensinodematemtica.blogspot.com.br/2010/11/campo-magnetico-condutor-retilineo.html]

Figura 5. Campo Magnético gerado por um solenoide. A letra i representa a corrente elétrica, S é o polo Sul do Eletroímã e N o polo Norte. [Fonte:http://aulasdefisicafelipe.blogspot.com.br/]]

Muitos não acreditavam na potencialidade dessa invenção e se opuseram fortemente à Morse. Cave Jonhson, político do Tennessee, foi uma dessas pessoas. Ele tentou ridicularizar o projeto no Congresso, dizendo que se consentissem o dinheiro para o lunático do telégrafo, deveriam financiar, também, a comunicação por hipnose. No entanto, em 21 de fevereiro de 1843, o financiamento foi aprovado.

Com o financiamento, Morse instalou com sua equipe 65 quilômetros de fio ligando Baltimore a Washington. Em 24 de maio de 1844 foi realizada a transmissão e as primeiras palavras digitadas pelo inventor foram “Que obras fez Deus”. O telégrafo foi o primeiro aparelho a utilizar a eletricidade para fins comerciais e obteve um tremendo sucesso.

Em poucos anos os EUA estavam cobertos por uma grande rede de cabos de ferro telegráficos e em 1858, as linhas cruzaram o atlântico, ligando a Europa e a América. Em pouco tempo, todo o mundo estava conectado nesta grande rede de informações.

A história das telecomunicações estava apenas começando. Após a popularização do telégrafo elétrico, seguiu-se uma grande empreitada em busca de se transmitir sons pelas linhas telegráficas. Não se imaginava como o domínio das leis da eletricidade ainda revolucionaria nossas vidas e tudo o que estava por vir.

Apenas em 1865 o cientista James Clerk Maxwell unificou os conhecimentos obtidos até então em uma teoria unificada do eletromagnetismo. O físico Feymman cita em seu livro Lições de Física, “Numa observação futura da história da humanidade – digamos, daqui a dez mil anos – haverá pouca dúvida de que o evento mais significativo do século XIX será considerada a descoberta de Mawell das leis da eletrodinâmica”.




Referências: 

Telecomunicações. Produção: The History Channel. Documentário. Disponível em https://archive.org/details/Telecomunicacoes. Acesso em 29 de dezembro de 2016.

Lições de Física de Feynman: Volume II. R. P. Feynman, R. B. Leighton, M. Sands. Bookman, 2009.

O poder é partilhado na revolução do século XXI. Ricardo Abramovay. O VALOR ECONÔMICO. Disponível em: http://www.centrocelsofurtado.org.br/arquivos/image/201202031416080.abramovay_valor_24_01.pdf. Acesso em 29 de dezembro de 2016.

O telégrafo como meio de comunicação e integração social. Clarisse NETTO; Douglas Baltazar GONÇALVES. Disponível em: http://www.portalintercom.org.br/anais/sudeste2015/resumos/R48-, 0464-1.pdf. Acesso em 29 de dezembro de 2016.










          









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