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Ciência: coisa de menina

Desigualdade de gênero no universo das ciências exatas e tecnológicas é provocada, principalmente, pelos estereótipos culturais.


Por Wislayne Dayanne Pereira da Silva


“Sério, você faz Engenharia Elétrica?” Provavelmente todos ou boa parte dos estudantes de Engenharia Elétrica ouviram essa pergunta pelo menos uma vez desde que ingressaram na Universidade. Mas o espanto parece ser ainda maior quando se trata das meninas. A crença no estereótipo de que “ciência não é coisa de menina” ainda existe firme e forte, contribuindo para o afastamento destas das ciências exatas e tecnológicas.

Cursos que envolvem muito cálculo, física e programação atraem mais o público masculino. Muitas pessoas erroneamente acreditam que isso acontece pelo fato das meninas naturalmente terem menos interesse ou habilidade sobre essas áreas de conhecimento, ignorando completamente os fatores sociais e a influência da cultura dos estereótipos.

Essa cultura está enraizada na sociedade desde que a ciência é ciência. Quando pensamos em um cientista, nossa mente projeta automaticamente a imagem de um rapaz com óculos e jaleco, fazendo experimentos e muitos cálculos. Galileo Galilei, Charles Darwin, Isaac Newton, Albert Einstein, Michael Faraday, Nikola Tesla, James Maxwell, Carl Sagan e Stephen Hawking estão no patamar da nossa lista mental de cientistas que mudaram o rumo da ciência. Mas onde estão as mulheres?

Partindo dessa pergunta, a Microsoft lançou no dia internacional da mulher desse ano (8 de março de 2016), a campanha Make What´s Next. Com objetivo de encorajar meninas a seguirem nas áreas de engenharia e computação, a campanha foi além, mostrou grandes feitos das mulheres que revolucionaram a ciência e a tecnologia, e surpreendentemente mostrou o quanto esses feitos são desconhecidos (veja o vídeo aqui: www.MakeWhatsNext.com).

Figura 1. Vídeo da campanha Make What´s Next

Evidentemente, grandes nomes no desenvolvimento científico ficaram de fora das aulas de ciências. Muitas mulheres contribuíram para o avanço científico e foram responsáveis por grandes invenções tecnológicas que mudaram a perspectiva da humanidade. Infelizmente, seus feitos parecem se perder no tempo. Um dos possíveis motivos é o fato que até o século XIX existiam leis que asseguravam que as mulheres não podiam possuir nenhum bem material ou intelectual, isso significava que seus inventos tinham que ser registrados no nome dos homens da família, pais ou maridos. As leis felizmente se foram, mas ainda pouco se fala das contribuições femininas na ciência e na engenharia.

Marie Curie, a primeira pessoa a conquistar o Nobel duas vezes em duas áreas diferentes; Ada Lovelace, a brilhante matemática que escreveu o primeiro algoritmo para ser interpretado por uma máquina; Hedy Lamarr, a estrela de Hollywood que inventou e patenteou a tecnologia que serviu como base para o desenvolvimento das redes sem fio e o GPS; Shirley Ann Jackson, a primeira negra doutora em Física pelo MIT, desenvolveu pesquisas que contribuíram para o avanço das Telecomunicações; Maria Telkes, inventora do sistema de aquecimento solar residencial; Grace Hopper, que criou a extinta linguagem de programação Flow-Matic, participou de um dos comitês de criação da linguagem COBOL e criou o primeiro compilador de COBOL. A lista não acaba aqui, muito menos as contribuições.

Figura 2. Do canto superior esquerdo para o inferior direito: Marie Curie, Ada Lovelace, Hedy Lamarr, Grace Hopper, Maria Telkes e Shirley Ann Jackson.

Então, “onde estão as mulheres?” não é a pergunta certa. Elas estão em toda parte, desde o primeiro programa de computador até os maiores mistérios do Universo. A questão é: por que o número de mulheres nas ciências, em especial nas áreas exatas e tecnológicas, ainda é tão pequeno?

Em 2012, apenas 14% das moças brasileiras que ingressaram na Universidade escolheram cursos de Ciências Exatas e Tecnológicas, enquanto no mesmo ano o índice de rapazes correspondia a 39%. Dados do censo de 2010 do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) também confirmam a desigualdade do gênero, as mulheres têm predominância no quadro total de pesquisadores nas áreas de Ciências Humanas e Sociais, e são a minoria na área das Ciências Exatas, especialmente nas engenharias (Veja as Tabelas abaixo).

Tabela 1. Distribuição dos pesquisadores por sexo segundo a área de atuação 2010 [Fonte: CNPq]

No que se refere ao mercado de trabalho, de acordo com o estudo sobre o perfil ocupacional dos profissionais de engenharia do Brasil, realizado entre 2003 e 2013, pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), apesar de a categoria ser majoritariamente masculina, as mulheres vêm aos poucos aumentando sua participação. Em 2003, o número de engenheiros homens empregados era de 121,5 mil enquanto as mulheres correspondiam a 24,4 mil. Em 2013 esses números correspondiam a 216,7 mil e 57 mil, respectivamente.

Figura 3. Distribuição dos engenheiros por sexo [Fonte: Diesse]

Os dados são claros, a participação feminina nas ciências exatas é realmente muito pequena. Uma das justificativas, segundo o psicólogo americano Andrew Meltzoff, é o fato de que desde a infância as meninas são influenciadas pelos estereótipos de gênero. “Não suje sua roupa”. “Você não vai querer mexer nisso”. “Esse projeto não é para menina”. “Deixe seu irmão fazer isso”. Frases como essas têm grande impacto na vida de uma criança, contribuindo para formação do errôneo e conhecido estereótipo que ciência não é coisa de menina. “Se as meninas são tratadas assim, e há uma expectativa social ampla de que matemática não é para garotas, elas podem começar a internalizar isso. Elas podem escolher jogos matemáticos com menos frequência, ou serem menos persistentes em problemas matemáticos difíceis, porque elas acham que ‘meninas não são boas em matemática’ ou ‘matemática não é para mim’.”, diz Meltzoff. E completa ainda: “E se a menina é boa em matemática – e muitas são – terá que dedicar energia e tempo extra para lutar contra o estereótipo dos outros”.

Figura 4

Os estereótipos estão em toda parte - nos livros, nos filmes, nos desenhos animados, na escola e na própria casa - desencorajando muitas meninas de ser tornarem cientistas e engenheiras, o que acaba perpetuando a desigualdade na área. Diante disso, é necessário que os pais e familiares orientem as crianças desde cedo que essas ideias não devem limitar suas visões de futuro. As meninas precisam ser incentivadas e inspiradas a enfrentar todos os desafios e dificuldades impostos por essa noção socialmente construída.

Mulheres e homens vêm lutando ao longo dos anos para mostrar que as meninas têm, sim, muito talento para a ciência. E que embora o número seja pequeno (os exemplos não são), a ciência está repleta de mulheres que dedicaram e estão dedicando a vida ao avanço do conhecimento e ao progresso científico. A ideia que direciona meninas a acreditarem que não são boas em ciências é proporcionalmente errada e estranha. Gênero não é capaz de definir interesse ou facilidade com determinado assunto. Ciência não é coisa de menino ou menina, ciência é para quem gosta de desafios.




Referências: 

Can you name any women inventors? Microsoft. Disponível em www.MakeWhatsNext.com. Acesso em 28 de maio de 2016.

Número de mulheres cientistas já iguala o de homens. Censo 2010, CNPq. Disponível em http://cnpq.br/noticiasviews/-/journal_content/56_INSTANCE_a6MO/10157/905361. Acesso em 31 de maio de 2016.

Perfil Ocupacional dos Profissionais da Engenharia no Brasil. DIEESE. Federação Nacional dos Engenheiros, Outubro, 2015.

Estereótipo de que ‘matemática é para meninos’ afasta meninas da tecnologia. Eitec. Disponível em http://www.expressodasilhas.sapo.cv/eitec/item/45979-estereotipo-de-que-%E2%80%98matematica-e-para-meninos%E2%80%99-afasta-meninas-da-tecnologia-diz-pesquisador. Acesso em 31 de maio de 2016.











          






            


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