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O bom cidadão

Para todo evento que ocorre, há a necessidade de encontrar um culpado e fazer justiça, tornando um caso complexo em algo muito simples, apenas para acalmar os ânimos da sociedade.
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De tempos em tempos, vivenciamos alguma grande tragédia de repercussão nacional. Não citemos casos específicos, afinal, estes acontecem regularmente. Com a cobertura da mídia, o fato toca os corações dos “bons cidadãos” e estes, mesmo que totalmente alheios ao caso, exigem explicações e, claro, alguém em quem por a culpa.

A pressão popular, devido à sua capacidade eletiva e impulsionada (ou manipulada) pelas constantes aparições do ocorrido em todo lugar, faz que “as devidas providências” sejam imediatamente tomadas. Assim, iniciam-se mirabolantes investigações, na busca incessante por um bode expiatório. Normalmente, a culpa toda recai sobre os ombros de alguns poucos infelizes que, mesmo tendo suas parcelas de responsabilidade no ocorrido, pagam por todos. Neste sentido, todas as medidas preventivas são renegadas, afinal, já temos as condenações e a população pode dormir em paz, pois a justiça foi feita – até que a próxima tragédia, normalmente evitável, ocorra.         

Após o encerramento do caso, o “bom cidadão” passa a distrair-se com fatos corriqueiros, como, por exemplo, os jogos da seleção brasileira. No momento que o time perde, ele busca o culpado: julga o trabalho do treinador que convocou errado, do atacante que perdeu o pênalti e do zagueiro que errou o passe. Pouco lhe importam as causas: tem que haver um culpado.        

Passada a “febre” causada pelo jogo, a mídia vira os olhos para algum caso de corrupção, estes sim, com uma frequência muito acima daquela que poderia ser considerada aceitável. Antes mesmo da matéria do jornal terminar, o “bom cidadão” pragueja e xinga os corruptos, afinal, estes são a causa de tudo de ruim que acontece no país. Neste momento, a memória do “bom cidadão”, que se apaga a cada par de meses, já não lembra da tragédia nacional nem do jogo da seleção.      

O “bom cidadão” aqui referido é o estereótipo mais comum que alguém pode imaginar. Invariavelmente, todos nós nos encaixamos nesse perfil em algum momento da vida. Ele é aquela pessoa que não gosta de trabalhar nem de estudar, mas exige que o jogador da seleção seja perfeito. É aquele que pensa que “isso só acontece com os outros”. Exige dos outros tudo aquilo que não consegue fazer, seja por uma impossibilidade, incompetência ou simples preguiça.       

Há alguns costumes contraditórios no “bom cidadão”. Sempre tem opinião formada sobre toda e qualquer notícia que aparece no jornal, na novela ou no Big Brother. Afinal, o jornalista já lhe deu o embasamento necessário para que ele possa julgar o caso e escolher o culpado, que deve ser trazido à justiça. Ele culpa o motorista bêbado que atropelou uma criança, mas volta pra casa dirigindo após a cerveja com os amigos. Culpa o corrupto que desviou milhões, mas vende seu voto por algum emprego comissionado. Culpa o jogador que não conseguiu dar seu melhor numa partida, mas não consegue sair da sua vida medíocre, que ele próprio cultivou (mas que também não é culpa dele).    

Assim, diariamente, o grupo de “bons cidadãos” elege um culpado para todo e qualquer infortúnio que acontece neste país. Até que, um dia, um desses “bons cidadãos”, que porventura não tenha pago o IPVA do seu carro ou esteja dirigindo a 80km/h numa rua que só permite 50km/h; ou ainda que sua empresa esteja com o alvará de funcionamento vencido há alguns meses. No momento de um acidente, decerto ele possui parte da culpa. Mas, ao ser agora o “foco” da mídia, a sociedade de “bons cidadãos” o expulsa do grupo e, imediatamente, ele vira o bode expiatório e deve ser feita a justiça, para que o grupo restante dos “bons cidadãos” possa dormir em paz e assistir ao jogo da seleção no outro dia.


Vítor Silveira
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Resgate histórico da turma 1974.2, que teve como um de seus componentes o professor Rômullo Raimundo Maranhão do Vale.