Matérias‎ > ‎

Blockchain, do Bitcoin à próxima “grande coisa”

-----------------------------------------------------------------------------------------------------------

Blockchain, do Bitcoin à próxima “grande coisa”

Por José Iuri Barbosa de Brito


Muito se fala em criptomoedas e Bitcoin nos últimos dias, desde a crescente valorização de 300% ao longo de 2017 à recente queda abrupta de 25% em um único dia (22 de dezembro) de trocas, diversos portais e representações governamentais deram seu parecer acerca da tendência da descentralização cambial e das moedas virtuais. Entretanto, em meio às polêmicas que envolvem o surgimento dessas novas formas de negociação, surgiu uma das grandes promessas para a tecnologia de validação e base de dados dos últimos tempos, o Blockchain.

Ele foi desenvolvido inicialmente como uma forma de validação das transações financeiras realizadas por meio da moeda Bitcoin, ou seja, garantir que ao realizar uma troca o montante seja devidamente transferido entre as partes. Por exemplo: ao ocorrer uma transferência de 0,2 bitcoin do indivíduo A para o B é necessário que toda a rede reconheça a transferência e some à quantia de B o valor creditado e debite corretamente de A. Em transações com dinheiro físico ou por meio do sistema bancário, o banco central de cada país reconhece a transação e centraliza todas elas de modo a manter a confiabilidade do sistema financeiro.

O Blockchain, ou Cadeia de Blocos, é uma tecnologia de criptografia e registro que funciona de modo a descentralizar a função dos bancos centrais de forma que a Cadeia de Blocos como um todo garanta a validade da transação e seja à prova de fraudes. Uma definição mais completa pode ser dada como “O Blockchain é um banco de dados distribuído que fornece um registro inalterável, (semi-) público de transações digitais. Cada bloco agrega um lote com datação marcada de transações para ser incluído na cadeia de blocos.”

Uma transação em bitcoins deve seguir os seguintes passos:

  1. Indivíduos entram em um consenso sobre o pagamento e trocam a moeda por meio de “software carteiras” de terceiros;
  2. A atual transação e outras transações pendentes são transmitidas para a rede global de bitcoins;
  3. Após determinada quantidade de tempo (alguns minutos) computadores especializados nessa rede, conhecidos como “mineradores”, coletam uma quantidade de transações e as combinam montando um bloco;
  4. Os mineradores processam o bloco, chegando a um consenso como deve ser o formato final do bloco;
  5. Os mineradores são recompensados com uma pequena quantidade de moeda paga como taxa para validar a transação;
  6. Os mineradores disseminam o novo bloco adicionando ele a Cadeia de Blocos, indexando esse bloco de modo a encontrar o bloco anterior a esse. Desse modo, a transação é validade e os usuários são creditados ou debitados da forma correta.

Figura 1. Processo de validação por meio da Cadeia de Blocos onde um registro dos blocos é feito a cada bloco adicionado à rede. [Fonte: Maiyama, et al.]

Com esse processo o Bitcoin não é algo físico, ou pode ser considerado um arquivo digital, os bitcoins são as entradas nessa base de dados formando os diversos blocos na rede, dessa forma é impossível roubar fisicamente alguém, ou adicionar alguma quantidade de moeda a rede sem ser por meio da cadeia de blocos.

Como toda tecnologia, o Blockchain pretende otimizar processos, conferindo maior agilidade às transações e maior segurança no controle e acesso de informações, sem a necessidade de intermediação de terceiros, nem de um sistema centralizado. Cada bloco da cadeia possui referências ao bloco imediatamente anterior e é carimbado com um código, ou hash, na rede. Além de possuir todas as informações sobre as transações e a referência ao bloco anterior, cada bloco dispõe da solução da Prova de Trabalho (Proof Of Work) que permite a aceitação e validação do bloco por todos os participantes da rede.

Após oito anos do lançamento do primeiro bloco, dando início a cadeia, alguns projetos buscam aplicar esse conceito para além de transações financeiras. Com o Bitcoin foi “eliminada” a necessidade de bancos e outras instituições intermediárias no processo de troca de dinheiro. Que outros intermediários poderiam ser substituídos e que outros serviços poderiam ser prestados dentro dessa grande cadeia. Nas condições atuais de mercado existem diversas empresas, privadas ou públicas, que validam diversas transações, sejam elas financeiras, comerciais ou de qualquer outra natureza. Contratos, selos, condições operacionais, todos esses sistemas poderiam entrar em uma grande Cadeia de Blocos.

Em 2013, o canadense Vitalik Buterin desenvolveu toda uma nova Cadeia de Blocos chamada de Ethereum. A proposta dessa plataforma era expandir o que o Bitcoin faz com as moedas para qualquer tipo de contrato, ou seja, qualquer tipo de transação independentemente de sua complexidade, teoricamente, poderia ser validada por meio desse sistema. Diferente do Bitcoin, as transações feitas nessa rede utilizam miniprogramas chamados de contratos inteligentes, estes armazenam instruções que são verificadas pelos mineradores e então são processadas.

Figura 2. Valorização da moeda virtual Ether utilizada na rede Ethereum. [Fonte: DailyCoin]

Com o Ethereum é possível carregar as instruções com software de modo que os comandos validados permaneçam inalterados e possam ser validados ou até mesmo executados em um blockchain. Dessa forma qualquer tipo de serviço digital, como por exemplo o Facebook, Spotify, Netflix, dentre outros, poderia ser inserido em uma cadeia de blocos robusta, de forma que essas novas versões sejam invulneráveis para os censores e transparentes em suas políticas e funcionem indefinidamente na ausência das pessoas que as criaram.

Esses contratos inteligentes, atualmente, suportam apenas alguns poucos bytes de metadados inviabilizando o sistema para aplicações que requerem uma alocação maior de memória. Para contornar a situação, surgiram os sistemas de armazenamento distribuído, esses sistemas permitiram que pessoas em todo o mundo alugassem espaço excedente em seus discos rígidos. Esses esquemas funcionariam para um sistema de contratos inteligentes baseados em cadeias de blocos porque os dados seriam armazenados redundantemente em vários computadores em todo o mundo e, portanto, estariam sempre disponíveis e difíceis de censurar, ou alterar seu conteúdo.

Além da capacidade de armazenamento, outro problema enfrentado pelos sistemas de contratos inteligentes é a necessidade rápida de informação. Devido ao processo de validação, a execução de programas em tempo real é comprometida, inviabilizando a utilização de cadeias de blocos em operações de alto risco e alta confiabilidade, como a utilização em protocolos de voos e de extração natural. Para suprir essas necessidades os desenvolvedores de blocos criaram os Oráculos.

Os Oráculos fornecem os dados necessários para desencadear a execução de contratos inteligentes quando os termos originais do contrato são atendidos. Essas condições podem ser qualquer coisa associada ao contrato inteligente - temperatura, conclusão do pagamento, mudanças de preços, etc. Os oráculos são o único caminho para contratos inteligentes interagirem com dados fora do ambiente Blockchain.

Figura 3. Ecossistema Ethereum, onde qualquer serviço poderia compor a cadeia. [Fonte: Bluehost]

Em uma situação hipotética, praticamente qualquer serviço digital poderia compor uma gigante cadeia de blocos. Ao mesmo tempo que um usuário decide assistir um vídeo em alta resolução e contrata um serviço de streaming para tal fim, em uma cadeia de blocos, o arquivo estaria armazenada na nuvem, ou em um sistema distribuído, ao mesmo tempo que outra cadeia validaria a compra, paralelamente a isso, o usuário poderia contatar em uma rede social dentro desse sistema seus amigos para aproveitar o filme com mensagens criptografadas e com protocolos de transmissão validados nessa cadeia.

Ao pensar em cadeia de blocos também se pensa em leis e todo um sistema financeiro e econômico mudando. A segurança digital se tornando parte da vida comum, ao mesmo tempo que a própria insegurança gerada por esses sistemas automatizados. As pesquisas com cadeias de blocos ainda estão na sua fase inicial, os principais testes realizados pelas empresas são em ambientes empresariais e controlados onde a necessidade de validação é maior. Entretanto, é de se esperar que essa tecnologia, considerada como a próxima “grande coisa” pela revista The Econnomist, ainda surpreenda com sua infinidade de aplicações.

Referências: 

Blockchains: How They Work and Why They’ll Change the World. RIEEE Spectrum. Disponível em https://spectrum.ieee.org/computing/networks/blockchains-how-they-work-and-why-theyll-change-the-world. Acesso 28 de Dezembro de 2017.

The next big thing. The Economist. Disponível em https://www.economist.com/news/special-report/21650295-or-it-next-big-thing/. Acesso 28 de Dezembro de 2017.

What is Blockchain? O'Byrne, W. Ian. Disponível em https://medium.com/badge-chain/what-is-blockchain-5e4498f05c20. Acesso 28 de Dezembro de 2017.

The Blockchain for Education: An Introduction. Watters, Audrey. Disponível em http://hackeducation.com/2016/04/07/blockchain-education-guide. Acesso 28 de Dezembro de 2017.












          










Comments